A maioria dos programas de mentoria em comunidades fracassa do mesmo jeito: uma onda de entusiasmo no lançamento, uma planilha de duplas, uma boa primeira chamada e, depois, nada. Ninguém decidiu para que serviam as duplas, ninguém decidiu quando elas terminavam, e os membros mais generosos foram assumindo, em silêncio, mais mentorados do que davam conta.
A mentoria funciona numa comunidade quando é pequena, específica e com prazo definido: um objetivo claro, um número fixo de conversas, uma data de término e mentores que são protegidos, em vez de esgotados. Este guia mostra como montar um programa assim.
Por que a maioria dos programas de mentoria esfria depois da primeira chamada
A primeira conversa é fácil. As duas pessoas estão curiosas, há uma história inteira para contar, e uma hora passa rápido. É na segunda conversa que os programas morrem, porque ninguém sabe para que ela serve. O mentorado não quer incomodar; o mentor não quer ficar cobrando. Um mês depois, cada um acha que o outro perdeu o interesse.
O problema não é compromisso. É a falta de um formato. Dê à relação um objetivo, uma duração e um ritmo, e a segunda conversa passa a ter um motivo para acontecer.
Comece com um objetivo específico
“Mentoria geral” soa generoso e rende muito pouco. Escolha um único resultado que seja a razão de existir do programa — fechar o primeiro cliente pagante, lançar o primeiro curso, atravessar o primeiro ano numa função nova — e construa tudo em torno dele.
Um objetivo específico faz três coisas ao mesmo tempo. Diz aos mentorados se o programa é para eles. Diz a você quem pode ser mentor: qualquer pessoa que tenha chegado a esse resultado há pouco tempo, a ponto de ainda lembrar como fez. E diz a cada dupla quando ela terminou, que é a parte que a maioria dos programas nunca decide.
Os mentores são o recurso escasso
Todo programa fica sem mentores antes de ficar sem mentorados, e os generosos são os primeiros a se esgotar, porque dizem sim para todo mundo. Como diz o guia de comunidades de fundadores, a boa vontade dos mentores é o recurso mais escasso que um programa tem.
Então proteja essa boa vontade de propósito. Limite cada mentor a um ou dois mentorados por vez. Torne o compromisso específico e finito — algumas conversas ao longo de poucas semanas, e não um “sempre que precisarem de você” sem prazo. E facilite dizer não ou descansar por uma rodada. Um mentor que tira um ciclo de folga e depois volta vale muito mais do que um que se esgota e vai embora.
Forme as duplas pelo próximo passo, não pelo currículo
O instinto é juntar os iniciantes com as pessoas mais impressionantes da comunidade. Quase sempre é a combinação errada. Quem está um ou dois anos à frente lembra o problema em detalhes; quem está uma década à frente lembra a resposta e já esqueceu o problema. O guia de fundadores chama quem mais ajuda de “não um mentor com um framework — um par com uma cicatriz”, e esse é o perfil a procurar.
Forme as duplas com base no que o mentorado está tentando fazer em seguida e em quem fez exatamente isso há pouco tempo. Faça às duas partes algumas perguntas simples antes de juntá-las: aonde você está tentando chegar, e o que você já fez que outra pessoa está prestes a tentar? Apresentações que perguntam “em que você poderia ajudar alguém aqui?” já terão dado a você metade das respostas.
Dê a cada dupla um formato fixo
Um bom padrão são quatro conversas ao longo de cerca de oito semanas, com o objetivo registrado por escrito logo no início. A primeira conversa define o objetivo e o plano; as duas do meio trabalham no que atrapalhou; a última faz um balanço do que mudou e do que vem a seguir.
Escreva esse formato e entregue a cada dupla. Ele acaba com o constrangimento de decidir se vale marcar outra chamada, e dá às duas pessoas permissão para terminar. Uma data de término não é um limite para a relação. Muitas duplas continuam conversando depois — mas porque escolheram, e não porque ninguém avisou que o programa tinha acabado.
Quem faz o trabalho da relação é o mentorado
Deixe explícito que quem conduz é o mentorado: é ele quem marca as conversas, traz as perguntas e manda depois uma nota curta sobre o que vai experimentar. O trabalho do mentor é aparecer e ser honesto.
Não se trata de fazer os mentorados trabalharem mais só por trabalhar. É isso que mantém os mentores dispostos a repetir a experiência. Um mentor que só precisa aparecer para quatro conversas bem preparadas vai dizer sim da próxima vez; um que precisa correr atrás de um mentorado durante um mês, não.
Quando não há mentores suficientes, grupos de mentoria
Se a sua comunidade tem cinquenta pessoas que querem um mentor e oito que poderiam ser mentores, duplas de um para um vão deixar a maioria esperando. A mentoria em grupo resolve a conta: um mentor se reúne com um grupo pequeno, de três a cinco mentorados com o mesmo objetivo, num ritmo regular.
Funciona melhor do que parece. Os mentorados ouvem os problemas uns dos outros, que muitas vezes são os seus próprios, e começam a responder uns aos outros — a mesma dinâmica que faz os plantões de dúvidas valerem a pena. Também é assim que funcionam os grupos de accountability, com uma diferença: num grupo de mentoria há alguém mais à frente na sala.
Termine bem e agradeça aos mentores em público
Encerre cada dupla direito: uma última conversa, um post curto do mentorado sobre o que mudou, se ele quiser compartilhar, e um agradecimento público ao mentor. Depois pergunte ao mentor se ele quer mais uma rodada ou um descanso, e ofereça as duas opções de verdade.
O reconhecimento importa mais aqui do que em quase qualquer outro lugar, porque mentoria é trabalho invisível. Um selo de “Mentor” no perfil, uma menção na forma como você reconhece os membros, um destaque quando um ex-mentorado se dá bem — é isso que faz o próximo mentor se oferecer.
O que o software pode e não pode fazer
A mentoria funciona com peças que já existem no Mateflow. As duplas podem conversar por mensagens diretas, que estão em todos os planos; os grupos de mentoria podem usar mensagens em grupo, que não estão em todos os planos, ou um espaço privado que você cria para cada grupo, já que os espaços não têm limite em nenhum plano. As sessões em grupo podem ser agendadas como eventos com lembretes e realizadas numa sala de vídeo. Você pode aplicar tags a mentores e mentorados para filtrar a lista de membros por eles, e campos de perfil personalizados podem registrar em que cada membro pode ajudar, embora esses campos não estejam em todos os planos. Um selo de “Mentor” é possível onde os selos estão disponíveis, e eles também não estão em todos os planos.
O limite, para ser honesto, está na formação das duplas. Não existe nenhuma ferramenta que forme as duplas de membros por você, e os membros não podem criar um espaço privado para a própria dupla ou grupo. Escolher as duplas, montar os espaços dos grupos e encerrar cada rodada é trabalho de administrador — e também é a parte em que o seu conhecimento da comunidade mais importa.
Três coisas para não fazer
Não lance uma “mentoria geral”. Sem um objetivo, as duplas não têm em que trabalhar depois da primeira chamada.
Não deixe os mentores aceitarem todo mundo. Coloque um limite, dê um fim ao compromisso e deixe que eles descansem entre as rodadas.
Não deixe as duplas esfriarem. Um encerramento claro, um agradecimento e um convite para participar de novo fazem mais pela próxima rodada do que qualquer anúncio de lançamento.
Em resumo
Um programa de mentoria é uma das coisas mais valiosas que uma comunidade pode oferecer, e uma das mais fáceis de deixar à deriva. Ele fracassa quando não tem objetivo, não tem fim e não protege as pessoas que estão doando o seu tempo.
Então mantenha o programa específico e finito: um único resultado, mentores um ou dois passos à frente, um limite para a carga de cada mentor, um conjunto fixo de conversas com o mentorado no comando, grupos de mentoria quando não houver mentores suficientes, e um encerramento de verdade, com agradecimento público. Depois, rode de novo — porque o melhor sinal de que um programa funcionou é ver mentorados da última rodada se inscrevendo para ser mentores na próxima.